Deteção Precoce e Prevenção do AVC

Entender os sinais de alerta, os fatores de risco e as melhores estratégias de tratamento e prevenção para reduzir o impacto do Acidente Vascular Cerebral (AVC). Dia Nacional do Doente com AVC assinala-se a 31 de março.

Diana Melancia, Médica Neurologista CNS - Campus Neurológico
Diana Melancia, Médica Neurologista CNS - Campus Neurológico. Foto: DR

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais causas de morte e incapacidade em Portugal e no mundo. Estima-se que uma em cada quatro pessoas sofrerá um AVC ao longo da vida. Em Portugal, o AVC representa a principal causa de morte e é responsável por um elevado número de casos de incapacidade permanente, o que tem um impacto significativo na qualidade de vida dos doentes e nas suas famílias.

O Que é o AVC?

O AVC ocorre quando há uma interrupção do fluxo sanguíneo para o cérebro, resultando em morte das células cerebrais na área afetada. Pode ser classificado em dois tipos principais:

  • AVC isquémico (cerca de 80% dos casos): Causado pela obstrução de um vaso sanguíneo no cérebro devido a um coágulo. Pode resultar de aterosclerose (formação de placas nas artérias), trombose ou embolia (quando um coágulo se desloca até ao cérebro).
  • AVC hemorrágico (cerca de 20% dos casos): Ocorre quando um vaso sanguíneo se rompe, causando uma hemorragia cerebral. As principais causas incluem hipertensão arterial não controlada, aneurismas cerebrais e malformações vasculares.

Sintomas de AVC: Como Reconhecer?

Os sintomas do AVC aparecem de forma súbita e variam conforme a área do cérebro afetada. Os sinais mais comuns incluem:

  • Fraqueza ou dormência num dos lados do corpo (braço, perna ou face);
  • Assimetria facial, com um lado da boca descaído;
  • Dificuldade na fala, como discurso arrastado ou incapacidade de articular palavras;
  • Perda de visão parcial ou total, especialmente em um dos olhos;
  • Tonturas e desequilíbrio, podendo levar a quedas repentinas;
  • Dor de cabeça intensa e súbita, sem causa aparente, mais frequente nos casos de AVC hemorrágico.

Fatores de Risco: O Que Pode Aumentar a Probabilidade de Ter um AVC?

Os fatores de risco para o AVC dividem-se em dois grupos:

  • Fatores de risco não modificáveis: Idade avançada, histórico familiar de AVC, género (os homens têm maior risco, mas as mulheres têm piores prognósticos) e doenças genéticas.
  • Fatores de risco modificáveis: Hipertensão arterial (o principal fator de risco), diabetes, colesterol elevado, tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo e arritmias cardíacas (especialmente fibrilhação auricular).

O Que Fazer em Caso de Suspeita de AVC?

O AVC é uma emergência médica, e o tempo de resposta é crucial para minimizar danos cerebrais. Para identificar rapidamente um AVC, utilize a regra dos três “Fs”:

  1. Fala – Peça à pessoa para dizer uma frase simples. Se a fala estiver arrastada ou incompreensível, pode ser um sinal de AVC.
  2. Face – Peça à pessoa para sorrir. Se um lado do rosto estiver descaído, pode ser um sinal de AVC.
  3. Força – Peça à pessoa para levantar os dois braços. Se um deles não conseguir ser levantado ou cair, pode ser um sinal de AVC.

Se notar algum destes sinais, ligue de imediato para o 112. O tratamento precoce pode fazer toda a diferença na recuperação do doente.

Diagnóstico do AVC

Após a chegada ao hospital, os médicos utilizam diversos exames para confirmar o diagnóstico e determinar o tipo de AVC:

  • Tomografia Computorizada (TC): Permite distinguir entre AVC isquémico e hemorrágico.
  • Ressonância Magnética (RM): Mais sensível para identificar pequenas áreas afetadas no cérebro.
  • Exames de sangue e eletrocardiograma: Para avaliar fatores de risco associados, como níveis de açúcar no sangue e presença de arritmias cardíacas.

Tratamento do AVC

O tratamento depende do tipo de AVC e da rapidez com que o doente recebe assistência médica:

  • AVC isquémico:
    • Administração de trombolíticos (medicação que dissolve coágulos), se o doente for tratado nas primeiras 4,5 horas após o início dos sintomas.
    • Trombectomia mecânica (remoção do coágulo por cateter), indicada para casos graves até 24 horas após o AVC.
  • AVC hemorrágico:
    • Controlo rigoroso da pressão arterial para reduzir o risco de hemorragia adicional.
    • Cirurgia, nos casos em que o hematoma causa pressão significativa no cérebro.

Reabilitação Após um AVC

A recuperação de um AVC varia consoante a gravidade do caso e a área cerebral afetada. A reabilitação pode incluir:

  • Fisioterapia: Para recuperar a mobilidade e reduzir a fraqueza muscular.
  • Terapia ocupacional: Para ajudar o doente a readquirir autonomia em atividades diárias.
  • Terapia da fala: Essencial para quem desenvolve dificuldades na comunicação.
  • Reabilitação cognitiva: Para melhorar a memória, atenção e raciocínio.

Como Prevenir um AVC?

A prevenção é fundamental para reduzir o risco de AVC. As principais medidas incluem:

  • Controlo da pressão arterial: Medir regularmente a tensão e seguir recomendações médicas.
  • Alimentação equilibrada: Reduzir o consumo de sal, gorduras saturadas e açúcar, priorizando frutas, vegetais e alimentos ricos em fibras.
  • Atividade física regular: Pelo menos 30 minutos de exercício moderado, 5 dias por semana.
  • Cessação tabágica e redução do consumo de álcool: O tabaco e o álcool aumentam significativamente o risco de AVC.
  • Monitorização de doenças crónicas: Como diabetes e fibrilhação auricular, que aumentam o risco de formação de coágulos.

O AVC é uma condição grave, mas pode ser prevenido através de um estilo de vida saudável e do controlo dos fatores de risco. O reconhecimento rápido dos sintomas e o acesso imediato a tratamento médico são essenciais para aumentar as hipóteses de recuperação e reduzir as sequelas.

Em caso de suspeita de AVC, tempo é cérebro. Lembre-se dos sinais: alteração na fala, no rosto e na força. Não hesite: ligue 112 imediatamente.

Autora: Diana Melancia, Médica Neurologista CNS – Campus Neurológico